Risco do uso não controlado de extratos de boldo

Ana Cecília & Julino Soares*

Num contexto de pandemia e sem tratamento específico, diversos produtos naturais estão sendo utilizados e divulgados como uma possível cura para a COVID-19, mas a maior parte desses produtos não possui nenhum embasamento científico como antiviral. Dentre esses, destaca-se o amplo compartilhamento da “notícia” sobre o uso de folhas de boldo para tratamento da COVID-19. Entretanto, um olhar mais atento revelou diversas falhas nessas informações, como o detalhamento sobre qual espécie deveria ser utilizada, já que, com esse nome popular, há mais de uma espécie, como o boldo- da-terra ou falso boldo (Plectranthus barbatus) - ou o boldo-do- chile (Peumus boldus ) (1).


Plectranthus barbatus Andrews. Fonte: Tropicos, Photographer	David Stang
Plectranthus barbatus Andrews. Fonte: Tropicos, Photographer David Stang

Conforme matéria publicada pela revista Saúde, fez-se uma busca em diferentes bases científicas e não foi encontrada nenhuma pesquisa indicando o uso de qualquer uma dessas espécies para o tratamento da COVID-19 1. Entende-se, em muitos casos, que, não havendo tratamento efetivo, pode se buscar por plantas para amenizar os sintomas gripais semelhantes aos provocados pelo novo coronavírus, porém, não são atribuídas ao “boldo”, habitualmente utilizado para problemas digestivos, propriedades neste sentido

O uso indiscriminado de plantas medicinais pode provocar reações adversas graves. Peumus boldus, que é a planta mais estudada deste grupo, não é recomendado para mulheres grávidas, crianças, ou para pessoas que apresentem desordens biliares, como obstrução do ducto ou colangite (2).


Dependendo do modo de preparo do fitoterápico, os riscos podem ser acentuados. Não se recomenda, por exemplo, o uso de extratos alcoólicos de P. boldus, por poderem concentrar ascaridol, um monoterpeno bicíclico tóxico (2). A população precisa ter em mente que as pesquisas científicas ainda estão buscando compreender todos os fatores de riscos para a COVID-19. Neste sentido, precisamos considerar a hipótese de complicações causadas pelo consumo de extratos alcoólicos de P. boldus, especialmente pelos pacientes com COVID-19. A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo informou que, ao menos, 41% dos pacientes com COVID-19 internados nas Unidades de Terapia Intensiva Adulto necessitaram de terapia renal. A hipótese levantada pela Sociedade Brasileira de Nefrologia é que o novo coronavírus pode afetar os rins em um mecanismo de "tempestade" inflamatória - por uma resposta exagerada do sistema imune na tentativa de combater o vírus - e que também afeta outros órgãos que têm como função filtrar o sangue (3, 4, 5).


Peumus boldus Molina. Fonte: Tropicos, Photographer	O.M. Montiel
Peumus boldus Molina. Fonte: Tropicos, Photographer O.M. Montiel

Assim, mesmo sendo apresentados como produtos naturais, é necessário conhecer bem a planta (identificação botânica da espécie), a alegação medicinal (com base em dados científicos) e as contraindicações (dados de farmacovigilância) antes de sua utilização, evitando-se o compartilhamento de informações não confirmadas cientificamente, o que pode resultar no uso indiscriminado destes produtos e em casos de intoxicação ou o atraso na busca por um médico para avaliar a gravidade dos casos de COVID-19.

Referências 1 - Biernath, A. SAÚDE, 2020. Boldo melhora os sintomas do coronavírus? Não caia nessa! Disponível em: <https://saude.abril.com.br/blog/e-verdade-ou-fake-news/boldo-sintomas-coronavirus/https://saude.abril.com.br/blog/e-verdade-ou-fake-news/boldo-sintomas-coronavirus/> Acesso em 20/02/2021. 2 - EMA, 2017. Assessment report on Peumus boldus Molina, folium. Disponível em: <https://www.ema.europa.eu/en/documents/herbal-report/final-assessment-report-peumus-boldus-molina-folium_en.pdf>. Acesso em 20/02/2021. 3 - Cerca de 41% dos pacientes com Covid-19 em UTIs de SP precisam de hemodiálise. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/2020/06/17/cerca-de-41-dos-pacientes-com-covid-19-em-utis-de-sp-precisam-de-hemodialise>. 4 - SUASSUNA, José Hermógenes Rocco et al. Nota técnica e orientações clínicas sobre a Injúria Renal Aguda (IRA) em pacientes com Covid-19: Sociedade Brasileira de Nefrologia e Associação de Medicina Intensiva Brasileira. Braz. J. Nephrol., São Paulo , v. 42, n. 2, supl. 1, p. 22-31, 2020 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-28002020000500022&lng=en&nrm=iso>. access on 21 Feb. 2021. Epub Aug 26, 2020. https://doi.org/10.1590/2175-8239-jbn-2020-s107. 5 - Schaeffner ES, Kurth T, de Jong PE, Glynn RJ, Buring JE, Gaziano JM. Alcohol consumption and the risk of renal dysfunction in apparently healthy men. Arch Intern Med. 2005 May 9;165(9):1048-53. doi: 10.1001/archinte.165.9.1048. PMID: 15883245.

§ Dr. Julino Soares: Pós-doutorando pela Faculdade de Saúde Pública da USP e Pesquisador Associado no Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário da USP. Pesquisador Colaborador no Programa de Políticas Públicas da UFABC.

§ Dra. Ana Cecília Carvalho: Possui mestrado em Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos pela UFPB (2005) e doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (2011). Atualmente é especialista em regulação e vigilância sanitária da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Fonte: Ana Cecília; Julino Soares. Planfavi - SISTEMA DE FARMACOVIGILÂNCIA EM PLANTAS MEDICINAIS. CEBRID, UNIFESP. ISSN: 2596-1918 Nº 57 janeiro/março 2021. Disponível em: https://www.cebrid.com.br/boletins/planfavi/planfavi-edicoes-anteriores/