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O uso do Chá Verde para Perda de Peso

Associado ao problema da fome, temos milhões de pessoas adoecendo e morrendo por consequência da obesidade. O chá verde é um produto amplamente divulgado para a perda de peso, mas quais as suas propriedades e limitações para o tratamento da obesidade?


Nesse primeiro texto, apresentamos uma breve introdução ao problema da obesidade e características da Camellia sinensis (chá verde). Nos próximos textos iremos apresentar formas de preparo, efeitos adversos, interações medicamentosas, e evidências científicas que sugerem o efeito benéfico da Camellia sinensis no tratamento da obesidade e estudos que sugerem uma contraindicação desse uso.



Obesidade: Dimensões do Problema


De acordo com o relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura uma a cada oito pessoas no mundo ainda passa fome, ou seja, foi estimado que entre 2011 e 2013 existia um total de 842 milhões de pessoas no mundo que ainda sofriam de desnutrição crônica, não recebendo regularmente comida suficiente para conduzir uma vida ativa.


Por outro lado, a Organização Mundial de Saúde afirma em relatório que, a cada ano, morrem cerca de 2,8 milhões de pessoas devido ao sobrepeso e a obesidade. A prevalência mundial de obesidade vem aumentando rapidamente; na região das Américas, o sobrepeso atingiu 62% para ambos os sexos e a obesidade 26%.


"A obesidade cresceu 11 vezes entre os jovens"

​​Segundo divulgação da Revista Fapesp (2017), a obesidade cresceu 11 vezes entre os jovens:


"O número de crianças e adolescentes obesos no mundo aumentou 11 vezes nas últimas quatro décadas (Lancet, 10 de outubro). Em 1975, havia 11 milhões de indivíduos com idade de 5 a 19 anos no mundo que estavam exageradamente acima do peso. Em 2016, as crianças e os jovens obesos eram 124 milhões, dos quais cerca de 60% eram do sexo masculino. Além disso, havia, também no ano passado, 213 milhões de pessoas dessa faixa etária com sobrepeso. A conclusão é de uma meta-análise coordenada por pesquisadores do Imperial College London e da Organização Mundial da Saúde. O trabalho analisou dados de 2.416 estudos epidemiológicos feitos em diferentes partes do globo desde meados dos anos 1970. Esses trabalhos forneceram informações sobre o peso e a altura de 130 milhões de indivíduos da faixa etária analisada".


A obesidade foi considerada como um importante fator de risco para diabetes, doenças cardiovasculares, várias formas de câncer (ex.: mama, cólon e próstata), doenças pulmonares, osteoarticulares e metabólicas.


A obesidade é caracterizada por acúmulo excessivo de gordura e aparece como a causa principal de doenças crônicas, como o diabetes mellitus tipo 2, a hipertensão arterial e o colesterol alto. Está descrita no DECs (Descritores em Ciências da Saúde) como:

"Estado no qual o PESO CORPORAL está grosseiramente acima do peso aceitável ou ideal, geralmente devido a acúmulo excessivo de GORDURAS no corpo. Os padrões podem variar com a idade, sexo, fatores genéticos ou culturais. Em relação ao ÍNDICE DE MASSA CORPORAL, um IMC maior que 30,0 kg/m2 é considerado obeso e um IMC acima de 40,0 kg/m2 é considerado morbidamente obeso (OBESIDADE MÓRBIDA)".


Vivemos em um período onde muitas pessoas estão mudando seus hábitos de alimentação, o que inclui a procura por alimentos funcionais, na expectativa de uma vida mais saudável e no enfrentamento de diversos problemas de saúde, como a obesidade. Assim, é relevante a verificação da alegação de que certas substâncias encontradas nos alimentos podem estar relacionadas à perda de peso. Dentre essas substâncias, o chá verde é massivamente apresentado como um produto para a este propósito.


O Chá Verde


Os “chás” são a segunda bebida mais consumida no mundo, sendo que o chá verde perfaz 20% do consumo mundial dessa bebida. O nome científico (botânico) do chá verde é Camellia sinensis (L.) Kuntze (C. sinensis). Foi batizada genericamente pelo botânico Linneé como Thea, termo derivado do mandarim “tsay”; com a pronúncia “tcha”. Assim, apenas a C. sinensis pode ser chamada de chá.


C. sinensis é um arbusto de origem asiática, a partir do qual são produzidos os chás branco, oolong, preto e verde. Logo após a colheita, o beneficiamento do chá verde consiste em realizar uma infusão com as folhas, o que inibe um processo de destruição de importantes substâncias da planta, denominado oxidação enzimática. O que possibilita a retenção de grande parte das catequinas, uma classe de polifenóis presente em grande quantidade nesse chá.


Assim, após colheita, o grau de oxidação das folhas que são usadas no preparo dos tipos de chás determina a quantidade de catequinas presente. O chá branco é o que possui essas substâncias em maior quantidade, seguido do verde, do oolong e do preto. No Brasil, seu cultivo é restrito ao Vale do Ribeira (SP), especialmente para a produção do chá preto.


As quatro catequinas presentes no chá-verde são (nomes complicados mesmo) epicatequina (EC), epigalocatequina (EGC), epicatequina galato (ECG) e epigalocatequina galato (EGCG), sendo esta última, presente em maior quantidade e com maior atividade para perda de peso. O chá também é fonte de cafeína, podendo conter metade da quantidade de cafeína presente na mesma medida de café. Isso depende do tempo de infusão, da quantidade e do tamanho das folhas usadas.

Estudos indicam uma associação entre o consumo de C. sinensis (chá verde) e do seu composto bioativo EGCG com a redução do peso e do acúmulo de gordura corporal em humanos e em estudos com animais.

Os efeitos da C. sinensis na redução do peso podem ser atribuídos principalmente à ação da EGCG e da cafeína contidas no chá ou em seu extrato, por meio de diversos mecanismos fisiológicos que produzem estímulos no sistema nervoso, regulação do metabolismo, expressão de genes e modulação da resposta inflamatória em uma complexa cascata bioquímica, resultando na diminuição da saciedade e um efeito termogênico e na oxidação lipídica.


Nos próximos textos serão apresentados dados sobre formas de preparo, efeitos adversos, interações medicamentosas, e evidências científicas que sugerem o efeito benéfico da Camellia sinensis no tratamento da obesidade e estudos que sugerem uma contraindicação desse uso.



Revisão e Agradecimentos

Eng. Agr. Marcos Furlan (Quintais Imortais)

Eng. Agr. Daniel Garcia (Engenharia das Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares)


Observações:

*As informações disponíveis nesse texto e site são apenas para uso educacional, sem qualquer garantia expressa ou implícita do uso medicinal e/ou terapêutico. Os conteúdos disponibilizados pelo FitoBula não substituem a leitura integral das diretrizes médicas, fontes originais citadas, bem como, a busca por atualizações ou observações à legislação. Todos os estudos devem ser avaliados sob diversos aspectos técnicos e legais para que sejam considerados úteis na aplicação clínica. A avaliação de informações em saúde inclui a análise dos conflitos de interesses, revisão por pares, tipo de estudo, qualidade do método ou desenho dos estudos clínicos, uso de diretrizes, validade interna e validade externa dos resultados, dentre outros.



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