O uso de plantas em surtos epidêmicos

Atualizado: Abr 7

Esse editorial foi escrito por: Ana Cecília Carvalho. Doutora em Ciências da Saúde e Julino Soares. Pós-doutorando pela Faculdade de Saúde Pública da USP / Programa de Políticas Públicas da UFABC



Frequentemente aparecem novas doenças que se disseminam rapidamente e amedrontam a população em todo o mundo. O surto mais recente é causado pelo vírus SARS-CoV-2, sendo a doença provocada por ele denominada Covid-19. Em 11/03/2020, a Organização Mundial da Saúde declarou esta doença causada pelo novo coronavírus (COVID-19) uma pandemia, representando um alto risco para países com sistemas de saúde vulneráveis1.


A maioria dos pacientes infectados desenvolveram sintomas leves, mas alguns tiveram complicações fatais. Em casos graves, experimentalmente, foi feito uso de antirretrovirais, dentre eles, o oseltamivir, princípio ativo do Tamiflu, não havendo ainda medicamento ou vacina aprovada para a Covid-19. Considerando que as medidas de contenção que estão sendo tomadas ainda não têm se mostrado suficientes, as pessoas começam a buscar alternativas, tanto para prevenção como para tratamento, estando, dentre elas, as obtidas de plantas medicinais. Os fitoterápicos podem auxiliar, mas devem ser usados com precaução, já que não há ainda estudos completos com o novo vírus; porém, o que se verifica nas redes é a disseminação de várias informações oportunistas1,2.

Dentre as opções buscadas, encontram-se produtos obtidos de Anis (Illicium verum), e plantas conhecidas popularmente por melhorarem o sistema imune, tais como alho (Allium sativum), gengibre (Zingiber officinale) e equinácea (Echinacea purpurea). A opção pelo anis, especialmente na forma de chá, se dá pela crença de que a planta teria o mesmo princípio ativo do Tamiflu, o que não é verdade. A ideia se desenvolveu porque uma das formas de obtenção do ativo oseltamivir é a partir do ácido chiquímico, que pode também ser extraído daquela planta, porém, não existem evidências de que a administração do anis apresente efeitos similares. A OMS tem monografia publicada para as outras três plantas citadas: alho, gengibre ou equinácea, nas quais, consta apenas para a equinácea a informação de existência de dados clínicos demonstrando o uso em terapia de apoio para resfriados e infecções do trato respiratório. Para o gengibre e alho não haveria estudos clínicos, estando o tratamento de resfriados e gripe relatado com base no uso tradicional, porém, não existem ainda evidências da utilização delas contra a Covid-19 em seres humanos3.


Assim, para pacientes sem contraindicação, pode-se usar essas plantas como complemento de outras medidas, como o autoisolamento e hábitos saudáveis, incluindo a boa alimentação e a qualidade do sono, mas nenhuma planta deve ser divulgada como capaz de curar a Covid-19. Até que medidas eficazes sejam desenvolvidas, o mais importante é que medidas básicas sejam seguidas, como, por exemplo, a lavagem frequente das mãos1.


"(...) nenhuma planta deve ser divulgada como capaz de curar a Covid-19"

A fitoterapia obteve grandes avanços no Brasil nas últimas décadas, com a modernização da legislação sanitária, inclusão no SUS e maior reconhecimento do saber tradicional nas pesquisas. Infelizmente, notícias falsas e promessas fraudulentas de “tratamento” ou “prevenção” podem denegrir os esforços alcançados2, sendo necessário, especialmente nesses momentos de grande comoção, que sejam divulgadas ou compartilhadas apenas notícias de fontes oficiais e científicas. É importante lembrar que informações falsas podem gerar ansiedade, ou desviar a atenção dos cuidados necessários.


Referências 1 - SOHRABI et al. World Health Organization declares Global Emergency: A review of the 2019 Novel Coronavirus (COVID-19). International Journal of Surgery. 2020. https://doi.org/10.1016/j.ijsu.2020.02.034. 2 - MINISTÉRIO DA SAÚDE. Disponível em: https://www.saude.gov.br/fakenews/coronavirus?start=10. Acesso em 08 mar. 2020. 3 - OMS. Monografias em plantas medicinais selecionadas. Disponível em: https://apps.who.int/medicinedocs/es/d/Js2200e/30.html. Acesso em 08 mar. 2020.

Esse editorial foi escrito por: Ana Cecília Carvalho. Doutora em Ciências da Saúde e Julino Soares. Pós-doutorando pela Faculdade de Saúde Pública da USP / Programa de Políticas Públicas da UFABC


Fonte: Planfavi - SISTEMA DE FARMACOVIGILÂNCIA EM PLANTAS MEDICINAIS. CEBRID, UNIFESP. ISSN: 2596-1918. Nº 53. janeiro/março 2020. Disponível em: https://www.cebrid.com.br/boletins/planfavi/


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