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Evento adverso fatal associado ao consumo de inhame cru

Atualizado: 31 de Jul de 2019

Segundo dados publicados recentemente na mídia, um homem de 56 anos morreu com suspeita de intoxicação alimentar após o consumo de inhame cru. De acordo com os familiares, a vítima de intoxicação tinha consumido o suco com inhame cru momentos antes, e que seria uma receita caseira para ajudar no tratamento da dengue.



A vítima foi atendida na Santa Casa com vômito e falta de ar e, mesmo após a intervenção médica, não resistiu. A matéria apresentada pela reportagem não cita se o inhame cru foi submetido à identificação botânica. Também não foi encontrado o laudo do legista para a causa da morte. Assim, foram levantadas hipóteses de contaminação por bactérias durante o preparo ou mesmo que a morte poderia ter sido causada pela dengue. Outra hipótese é que tenha ocorrido o consumo de espécies parecidas, como o taro, um parente do inhame que contém níveis mais altos de oxalato (considerado tóxico em grandes quantidades).


A ausência da identificação da espécie ingerida pela vítima dificulta a avaliação da literatura científica especializada, pois há várias espécies de inhame consumidas no Brasil, sendo algumas consideradas tóxicas. Devido a variabilidade na toxicidade entre espécies da mesma família ou pela similaridade, deve-se evitar o consumo de plantas medicinais sem a correta identificação.


Adicionalmente, é necessário que seja feito o preparo correto do produto, não devendo, para muitas espécies conhecidas como inhame, ser feito o uso do suco ou de produtos crus. A forma de conservação e o tempo entre o preparo e o consumo também pode favorecer a proliferação de bactérias indicadoras de risco.


Dependendo da espécie e do modo de preparo utilizado, podem ser encontradas altas concentrações de oxalato de cálcio ou de glicosídeos cianogênicos nos produtos obtidos. Essas substâncias podem causar intoxicações as quais podem, em pessoas que estejam com problemas hepáticos devido a uma possível infecção com o vírus da dengue, ser mais danosas. Porém, existem divergências de opiniões sobre a ação do oxalato de cálcio.


Acredita-se que este teria apenas um papel coadjuvante, onde a ação mecânica dos cristais de oxalato no organismo estaria contribuindo com a ação de outros compostos como enzimas proteolíticas e glicosídeos cianogênico. Os glicosídeos cianogênicos podem liberar cianeto de hidrogênio que é altamente tóxico, atuando como um mecanismo de defesa em muitas plantas quando são mastigadas. Os sintomas por envenenamento agudo por cianeto incluem confusão mental, paralisia muscular e desconforto respiratório.


O consumo prolongado de espécies vegetais ricas em cianeto em dietas restritivas e o alto consumo de tabaco (inalação de fumaça) também podem resultar em síndromes neurológicas, caracterizadas pela atrofia óptica, ataxia e surdez.

Os profissionais da saúde devem ficar atentos quando questionados pelos pacientes sobre o inhame, pois é possível encontrar na internet sites contendo informações de que o inhame seria um repelente contra a dengue e até que ajudaria no tratamento da doença, mas até o momento não foi localizada fundamentação em pesquisas clínicas ou registros na ANVISA de medicamentos à base de plantas para o tratamento da dengue.

Referências

  • G1 Rio Preto e Araçatuba. Homem morre após tomar suco de inhame cru em Rio Preto. 17/04/2019. Acesso em: 18.06.2019. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/saojose-do-rio-preto-aracatuba/noticia/2019/04/17/homemmorre-apos-tomar-suco-de-inhame-cru-em-riopreto.ghtml.

  • Pinheiro. 2019. Suco de inhame cru ajuda no tratamento da dengue? É fake. Saúde, Grupo Abril. 12.06. 2019. Acesso em: 18.06.2019. Disponível em: https://saude.abril.com.br/blog/e-verdade-ou-fakenews/suco-de-inhame-cru-ajuda-no-tratamento-dadengue-e-fake/

  • Branco. 2017. Taro, inhame, cará, taioba-mansa, taiobabrava e tinhorão - você sabe reconhecer quem é quem? 4/8/17. Acesso em: 18.06.2019. Disponível em: https://www.greenme.com.br/alimentarse/alimentacao/5687-taro-inhame-cara-taioba-mansataioba-brava-tinhorao.

  • Soares Neto et al. 2012. Microbiological contamination risk of psychoactive herbal drugs purchased in informal trade. Rev. Inst. Adolfo Lutz v.1, n.2, p.420-423.

  • Basso, MS; Soares JAR; Rodrigues E. 2017. Avaliação do Potencial Tóxico de Plantas Ornamentais Comercializadas no Município de São Paulo. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como exigência parcial para obtenção do grau de bacharel em Farmácia, ao Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo – campus Diadema, 2017.

  • Takayuki 2014. Substâncias Fitoquímica Tóxicas, 121p. In: Introdução a Toxicologia dos Alimentos. Rio de Janeiro, 2º Ed. Elsevier.

Fonte: Julino A. R. Soares Neto & Ana Cecília B. Carvalho. Evento adverso fatal associado ao consumo de inhame cru. In: Boletim Planfavi. SISTEMA DE FARMACOVIGILÂNCIA EM PLANTAS MEDICINAIS. CEBRID. Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas. ISSN: 2596-1918 Nº 50 abril/junho 2019 . Disponível em: https://www.cebrid.com.br/wp-content/uploads/2019/07/Boletim-PLANFAVI-50-Abril-Maio-Junho-2019.pdf


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